Só podia ser homem

Se como dizia aquele dramaturgo toda unanimidade é burra, um título como o que você lê acima já nasce capenga. Mas é da natureza humana, na tentativa de compreender e de se relacionar com a complexidade do mundo, rotular pessoas, atitudes, instituições. Daí para o preconceito e suas conseqüências mais negativas, a distância é só a de um pequeno passo.
No trânsito o esquema se repete, e nem poderia ser diferente, já que estamos falando de um espaço público onde desconhecidos interagem, protegidos muitas vezes por cascas metálicas e um relativo anonimato. É a hora, pensam alguns, de descontar as frustrações sem maiores conseqüências. E dê-lhe buzinadas agressivas, xingamentos variados, exteriorização de preconceitos sociais, raciais, econômicos e de gênero.
Parece mentira, mas em um país de contrastes econômicos e sociais como o nosso, quem tem um carrinho popular de 1963 se acha no direito de enfiar a mão na buzina para fazer o carroceiro que está “atrapalhando” o trânsito chicotear o cavalo lomba acima. Ou ofender o papeleiro, só porque é um pouco mais pobre do que ele. Mas o trânsito é composto de todos estes personagens que se deslocam pelas vias públicas, seja como for, a pé ou de carro, em lombo de burro ou bicicleta, em carro último tipo ou ônibus antigo. O motorista do carrão esquece que em algumas ocasiões também é pedestre, que seu filho é ciclista, que o DVD que aluga chega à sua casa embaixo da chuva na caixa de um motoboy.
Acha pouco? O que dizer então das empresas que anunciam seus veículos explorando o que seu público alvo tem de pior? E das madames que estacionam em fila dupla para esperar os rebentos na saída das escolas? E dos senhores em crise de meia idade que ostentam suas máquinas, correndo atrás do que acham que a vida lhes tirou? De fato, o trânsito é um caldo de cultura do comportamento humano no que ele tem de melhor e de pior; um prato cheio para sociólogos e psiquiatras.
Neste ambiente em tensão emocional, os agressivos gritam mais alto e causam mais problemas, e por isso parecem ser muitos. Mas felizmente os que trafegam civilizadamente ainda são maioria. Afinal, não é todo dia que um neandertal se irrita pelo fato da senhora à sua frente não estar pisando fundo e lança o célebre e batido “só podia ser mulher!”.
Por tudo isso, colabore para pacificar o trânsito, compreendendo-o melhor. Se você vir um carro passar cantando pneus e emparelhar com outro para um perigoso “pega” em plena via pública, seja você homem ou mulher, dê uma olhadinha, tentando conferir se você adivinhou o sexo do motorista. Se a película escura estiver dentro da lei, é claro.


Eunice Gruman
Coordenadora da Assessoria de Comunicação Social do Detran-RS





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